{"id":507,"date":"2018-07-23T10:08:30","date_gmt":"2018-07-23T13:08:30","guid":{"rendered":"http:\/\/humanitat.com.br\/?p=507"},"modified":"2019-08-28T21:19:57","modified_gmt":"2019-08-29T00:19:57","slug":"english-german-chancellor-fellowship-reflections","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/english-german-chancellor-fellowship-reflections\/","title":{"rendered":"German Chancellor Fellowship &#8211; Reflex\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><strong>A modernidade \u00e9 fluida como um rio<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante uma viagem ao Uruguai, discutimos com aquele grupo uma passagem do escritor Eduardo Galeano, presente em seu &#8220;O Livro dos Abra\u00e7os&#8221;, que descreve a viagem de um pai com o filho, para conhecer o mar. Ao se deparar com a imensid\u00e3o, o pequeno pede: \u201cpai, me ajuda a olhar\u201d. Se esse filho n\u00e3o tivesse uma ideia do que era o mar, ele n\u00e3o toparia a penosa jornada. Mas assim que o v\u00ea, ele se surpreende.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Surpreender-se. N\u00e3o deveria ser o objetivo de ningu\u00e9m sair do seu pa\u00eds para confirmar sua vis\u00e3o de mundo, e sim se abrir a novas ideias. Perceber que muito do que achamos \u201cnatural\u201d s\u00e3o, na verdade, valores absolutamente culturais, mesmo num mundo globalizado e \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o toparia largar minha vida no Brasil e vir morar na Alemanha por um ano e meio &#8211; uma jornada penosa, se considerarmos que eu tinha uma profiss\u00e3o estabelecida, e num pa\u00eds tropical &#8211; se eu n\u00e3o tivesse uma ideia do que eu encontraria na Alemanha. Sou de uma cidade de imigra\u00e7\u00e3o alem\u00e3, que, apesar de n\u00e3o corresponder mais aos valores da sociedade alem\u00e3, ainda mant\u00e9m bastante contato com a Alemanha. Tamb\u00e9m j\u00e1 estive aqui em outras oportunidades, assim j\u00e1 tinha uma expectativa do que encontrar. Mas durante este ano, eu pude conhecer a Alemanha e os alem\u00e3es como uma residente, e n\u00e3o como uma simples visitante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A minha primeira grande surpresa foi a rela\u00e7\u00e3o com o estrangeiro e a rela\u00e7\u00e3o disso com os novos valores da sociedade. Mas antes disso, eu gostaria de fazer um paralelo entre os valores da sociedade industrial e os valores da sociedade atual. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ind\u00fastria \u00e9 caracterizada pela sua linha de montagem. O padr\u00e3o \u00e9 linear, repetitivo, segmentado e previs\u00edvel. Uma etapa segue a outra linearmente e assim tamb\u00e9m s\u00e3o as carreiras profissionais. A repeti\u00e7\u00e3o leva \u00e0 otimiza\u00e7\u00e3o dos processos e dos trabalhadores, cada vez mais especializados. Tudo \u00e9 segmentado e agrupado por fun\u00e7\u00f5es, tanto nas etapas de fabrica\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m nos departamentos das empresas. Tudo \u00e9 muito previs\u00edvel, j\u00e1 se conhece cada uma das etapas e seus resultados. A est\u00e9tica \u00e9 a est\u00e9tica da m\u00e1quina. A velocidade \u00e9 a velocidade da m\u00e1quina. A escala \u00e9 a escala da m\u00e1quina. Funcional, estandardizado, massificado. Esse tamb\u00e9m \u00e9 o padr\u00e3o de comportamento da sociedade industrial. O padr\u00e3o de vida \u00e9 repetitivo e previs\u00edvel. A escolha da profiss\u00e3o era para a vida inteira. A fam\u00edlia tinha um formato definido, o casamento duradouro, os filhos, a casa, a aposentadoria. Tudo muito l\u00f3gico, padronizado e massificado. A diferen\u00e7a n\u00e3o era aceita, muito pelo contr\u00e1rio. O homossexual n\u00e3o era bem visto, a esposa separada n\u00e3o era bem vista, tampouco o casal sem filhos, para ficarmos nos exemplos da fam\u00edlia. As pessoas anulavam suas diferen\u00e7as para pertencerem a um grupo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A sociedade atual n\u00e3o funciona mais dentro dessa mesma l\u00f3gica. Uma an\u00e1lise requer distanciamento hist\u00f3rico, mas somos cada vez mais conectados, customizados, multidisciplinares, n\u00e3o-lineares e imprevis\u00edveis. Os padr\u00f5es consolidados se abriram a novas abordagens (ex: novas configura\u00e7\u00f5es de fam\u00edlias). Somos cada vez mais auto-curadores de informa\u00e7\u00e3o, de produtos, e isso abriu o caminho para a customiza\u00e7\u00e3o. A individualidade \u00e9 desejada. Nos nossos tempos, n\u00e3o basta aceitar as diferen\u00e7as, n\u00f3s celebramos as diferen\u00e7as. Esses conceitos j\u00e1 s\u00e3o bem enraizados na Alemanha, ao menos nas rela\u00e7\u00f5es pessoais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voltando ao t\u00f3pico &#8216;estrangeiro&#8217;. Quando os alem\u00e3es foram para o Brasil, Blumenau era uma cidade \u00e0 parte do pa\u00eds, onde as aulas nas escolas eram em alem\u00e3o, as negocia\u00e7\u00f5es eram em alem\u00e3o e os costumes eram os mesmos dos colonizadores imigrantes. A campanha de nacionaliza\u00e7\u00e3o aconteceu dentro da l\u00f3gica industrial. A ideia central foi eliminar as diferen\u00e7as, e rapidamente os alem\u00e3es e descendentes se integraram ao pa\u00eds, neste caso, sua cultura foi engolida pela cultura brasileira dominante na \u00e9poca. Sempre na ideia de tornar padronizado e massificado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na Alemanha atual, a imigra\u00e7\u00e3o e a integra\u00e7\u00e3o dos estrangeiros &#8211; eu inclu\u00edda, ainda que imigrante tempor\u00e1ria &#8211; n\u00e3o ocorre mais dentro dos valores industriais. Os valores da sociedade atual prezam pelas singularidades. Todos querem ser \u00fanicos. Entende-se a diferen\u00e7a como algo positivo. Hoje, o desafio n\u00e3o \u00e9 mais desaparecer com as diferen\u00e7as, mas o contr\u00e1rio: aprender a conviver com elas. A ideia \u00e9 muito mais viver em comunidade, cada um respeitando as demais individualidades. \u00c9 preciso destacar a import\u00e2ncia dos espa\u00e7os p\u00fablicos: lugares que pertencem a todos, onde pessoas de diferentes idades, culturas e backgrounds se re\u00fanem. E eu estou falando de diversidade, mas tamb\u00e9m de democracia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil \u00e9 conhecido por ser um pa\u00eds multicultural, em que v\u00e1rias culturas formaram a cultura brasileira (claro que h\u00e1 romantismo nessa vis\u00e3o de Brasil, j\u00e1 que as diferen\u00e7as existem e n\u00e3o s\u00e3o poucas). O multiculturalismo na Alemanha \u00e9 diferente: voc\u00ea vai ao mercado e ouve v\u00e1rias l\u00ednguas, muitas das quais voc\u00ea nem sabe identificar. Voc\u00ea anda na rua e v\u00ea um restaurante grego, do lado de um italiano, do lado de um japon\u00eas. O que n\u00e3o significa necessariamente que o estrangeiro n\u00e3o esteja integrado na Alemanha. N\u00e3o vi guetos na Alemanha, n\u00e3o da maneira com que os vejo no chamado miscigenado Brasil. Tamb\u00e9m n\u00e3o acho que um modelo seja melhor do que o outro. S\u00e3o apenas abordagens diferentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda dentro da compara\u00e7\u00e3o industrial e contempor\u00e2nea, as institui\u00e7\u00f5es na Alemanha funcionam dentro da l\u00f3gica industrial. Os procedimentos s\u00e3o todos padronizados, repetitivos, lineares, previs\u00edveis. Com a repeti\u00e7\u00e3o, os procedimentos ficaram muito bons, \u00e1geis, otimizados, eficientes, mas n\u00e3o s\u00e3o \u00e0 prova de falhas. E a realidade hoje \u00e9 cheia de exce\u00e7\u00f5es. Qualquer situa\u00e7\u00e3o que esteja fora do procedimento, gera uma impot\u00eancia de um lado, e um descontentamento muito grande do outro. Nos grupos sociais de que participei, com nativos e com estrangeiros, todos tinham hist\u00f3rias para se queixar. Comecei a receber textos diversos, questionando a famosa efici\u00eancia alem\u00e3, e eu mesma passei por uma situa\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o que meses depois ainda n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que a Alemanha n\u00e3o seja eficiente, os procedimentos atendem quase a totalidade das situa\u00e7\u00f5es. \u00c9 que o mundo est\u00e1 mudando o tempo todo, e a velocidade das mudan\u00e7as n\u00e3o \u00e9 acompanhada pelas institui\u00e7\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse aspecto, o estrangeiro faz bem ao alem\u00e3o, pois traz uma dose de imprevisibilidade, de mudan\u00e7a. Se a auto-estima do estrangeiro for bem trabalhada &#8211; isso significa, se ele n\u00e3o tiver medo de agir conforme a sua cultura &#8211; a Alemanha tem um potencial enorme. Se anteriormente era melhor que todos pensassem de forma semelhante, gerando mais agilidade dentro de um padr\u00e3o, hoje a riqueza vem justamente de cabe\u00e7as pensando da maneira mais diversa poss\u00edvel, gerando solu\u00e7\u00f5es inovadoras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas por que falo tanto da compara\u00e7\u00e3o entre a sociedade industrial e a atualidade? Como arquiteta e urbanista, \u00e9 preciso entender o modernismo como express\u00e3o dos valores daquela sociedade e a materializa\u00e7\u00e3o desses no tecido das cidades. As cidades modernistas foram concebidas de forma monofuncional, cada fun\u00e7\u00e3o separada fisicamente: morar, trabalhar, circular e recrear. A velocidade da cidade passou a ser a velocidade da m\u00e1quina, do autom\u00f3vel, e logo a escala deixou de ser uma escala humana. Por exemplo: quando caminhamos por uma rua, as fachadas curtas e cheias de detalhes s\u00e3o muito atraentes (cidade antiga), enquanto se passarmos de carro, as fachadas podem ser mais longas e sem detalhes (cidade modernista). Outro ponto foi demonstrar a capacidade t\u00e9cnica de usar a natureza e de controlar a natureza. Essa l\u00f3gica industrial criou habitats sem vida, sem conv\u00edvio social. A cidade virou um aparato de interliga\u00e7\u00f5es vi\u00e1rias de n\u00facleos funcionais isolados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A revis\u00e3o desses valores nas cidades j\u00e1 acontece de forma muito avan\u00e7ada na Alemanha. Vim para o pa\u00eds em busca de novos par\u00e2metros para substituir padr\u00f5es t\u00e3o prim\u00e1rios, como largura das avenidas e altura dos edif\u00edcios, que ainda significam modernidade para grandes parcelas da sociedade brasileira. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E aqui vem a minha segunda grande surpresa: como as cidades alem\u00e3s s\u00e3o conectadas com a natureza! Eu j\u00e1 havia experimentado o aconchego dos centros antigos das cidades e tamb\u00e9m j\u00e1 havia pedalado de bicicleta pela Alemanha e feito alguns caminhos de &#8220;wanderung&#8221;. Tamb\u00e9m j\u00e1 conhecia o conceito de renaturaliza\u00e7\u00e3o de rios. Portanto, eu j\u00e1 tinha uma ideia do que encontraria por aqui. Mas o que eu vi foi muito al\u00e9m disso. Primeiramente, na escala. H\u00e1 uma quantidade enorme de caminhos para passeio, exclusivos para pedestres e ciclistas. Bonn e Munique, cidades onde morei, s\u00e3o muito conectadas atrav\u00e9s desses caminhos, inclusive dentro dos centros urbanos. Pode-se passar por dentro de parques para ir tranquilamente entre pontos distantes da cidade. E tamb\u00e9m a quantidade de pequenos bosques para passeio. \u00a0Depois, como isso \u00e9 uma caracter\u00edstica especialmente alem\u00e3. O cidad\u00e3o alem\u00e3o se mobiliza por um modelo de cidade mais agrad\u00e1vel para as pessoas, com mais qualidade de vida, com mais respeito a outras formas de vida. Passei pela Holanda e Dinamarca durante o Europe Stay. Morei em cidades mundialmente conhecidas pela qualidade de vida e pelo planejamento urbano. Foram experi\u00eancias bel\u00edssimas nesse sentido. Mas a jun\u00e7\u00e3o de cidade e natureza \u00e9 uma caracter\u00edstica bem alem\u00e3.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 bastante claro como a Alemanha j\u00e1 virou a p\u00e1gina e incorporou os valores atuais nas cidades. Na nossa modernidade, a vida \u00e9 din\u00e2mica. As formas de trabalho, de relacionamento, enfim, o nosso habitat \u00e9 muito mais flex\u00edvel e imprevis\u00edvel. Assim tamb\u00e9m \u00e9 a natureza. Assim tamb\u00e9m s\u00e3o os rios, meu objeto de estudo. N\u00f3s estamos mudando de um modelo de controle artificial da natureza para um modelo de adapta\u00e7\u00e3o e parceria com a natureza. Os rios, antes retificados e concretados, ou seja, controlados e otimizados em favor de necessidades funcionais, est\u00e3o cada vez mais livres. A solu\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 dar mais espa\u00e7o para os rios e ribeir\u00f5es, melhorando o controle de enchentes, a biodiversidade e os espa\u00e7os p\u00fablicos para os cidad\u00e3os. Afinal, se o mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais fixo, por que as margens dos rios deveriam ser?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A terceira grande surpresa vem da popula\u00e7\u00e3o, em termos de entendimento sobre o p\u00fablico, a natureza e engajamento comunit\u00e1rio. Coloco os tr\u00eas aspectos juntos, porque todos se referem \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sociedade e planejamento urbano. Tudo o que \u00e9 p\u00fablico \u00e9 bastante controlado pelas pessoas. H\u00e1 um grau de compreens\u00e3o maior da import\u00e2ncia que estes equipamentos t\u00eam, no sentido de serem de todos n\u00f3s. Tudo o que diz respeito \u00e0 natureza tem um peso enorme nas decis\u00f5es. E como a popula\u00e7\u00e3o se une para defender o coletivo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil tem leis muito mais avan\u00e7adas em termos de participa\u00e7\u00e3o popular, por\u00e9m a \u00a0popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 empoderada para lutar pelos interesses coletivos. J\u00e1 na Alemanha, eu frequentei v\u00e1rias reuni\u00f5es de planejamento participativo, e um aspecto foi comum a todas: a massiva participa\u00e7\u00e3o de gente que n\u00e3o estava l\u00e1 para defender os interesses da empresa ou dos seus neg\u00f3cios, mas os interesses da preserva\u00e7\u00e3o da natureza e da qualidade de vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez seja este o grande aprendizado que estou levando: tudo o que envolve estes dois interesses \u00e9 muito forte aqui. A preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, urgente, mais do que o entendimento da necessidade de espa\u00e7os p\u00fablicos. Nas reuni\u00f5es sobre os rios, a quest\u00e3o ambiental fica acima do que o seu uso pelas pessoas, mesmo em \u00e1reas urbanas. E em segundo lugar vem a qualidade de vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As cidades est\u00e3o constantemente ficando mais amigas da bicicleta, mas amigas da natureza, com mais \u00e1reas de lazer, com mais parques, com mais \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o. As comunidades, e em especial as novas gera\u00e7\u00f5es, reconhecem o valor deste esfor\u00e7o aproveitando esta nova forma de usufruir do espa\u00e7o p\u00fablico, espa\u00e7os nobres para a conviv\u00eancia, o lazer e a reflex\u00e3o. Isso \u00e9 especialmente importante nos nossos tempos, em que o trabalho \u00e9 muito mais do que a mera repeti\u00e7\u00e3o e, assim, precisamos de espa\u00e7os adequados para a reflex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo com a ind\u00fastria do carro e do motor sendo economicamente vital para o pa\u00eds, e mantendo um poderoso lobby, a popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 preza muito pela preserva\u00e7\u00e3o. Desde a d\u00e9cada de 1970, assuntos em favor da prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente est\u00e3o na pauta. A preocupa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica j\u00e1 \u00e9 consolidada na Alemanha. E j\u00e1 est\u00e1 na frente de muitas outras coisas. Inclusive confortos materiais, ou o uso humano do rio. O povo alem\u00e3o entendeu que o bem-estar e a qualidade de vida do futuro n\u00e3o estar\u00e1 atrelado s\u00f3 \u00e0 tecnologia a \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 capacidade de conviver em harmonia com o mundo natural que nos cerca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo o que \u00e9 p\u00fablico \u00e9 bastante controlado pelas pessoas e h\u00e1 um grau de compreens\u00e3o maior da import\u00e2ncia que estes equipamentos t\u00eam, no sentido de serem de todos n\u00f3s. Tanto no sentido f\u00edsico dos espa\u00e7os, como no sentido abstrato. Todos s\u00e3o &#8220;ricos&#8221;, porque a estrutura p\u00fablica garante uma boa qualidade de vida a todos. Ningu\u00e9m precisa pagar um clube privado, ou viver em caros condom\u00ednios privados que oferecem infraestrutura. A cidade j\u00e1 oferece parques, ciclovias, uma rede de transporte p\u00fablico, cal\u00e7adas e trilhas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da mesma forma, as pessoas est\u00e3o muito atentas \u00e0s regras de ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o nas cidades, seja no espa\u00e7o p\u00fablico ou nas constru\u00e7\u00f5es privadas. Antes de vir para a Alemanha, eu achava que as regras no pa\u00eds eram muito mais elaboradas, e que as empresas do ramo imobili\u00e1rio n\u00e3o tinham, legalmente, como influenciar as decis\u00f5es e legisla\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, s\u00e3o as mesmas press\u00f5es que temos no Brasil. E as regras n\u00e3o s\u00e3o melhores &#8211; em muitos casos, s\u00e3o at\u00e9 piores. O Brasil tem um conjunto de instrumentos muito poderoso, que n\u00e3o encontra correspondente na Alemanha. S\u00f3 que a popula\u00e7\u00e3o na Alemanha \u00e9 muito mais preocupada com o coletivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma cidade como Munique, por exemplo, tem uma demanda muito grande por moradias. Como n\u00e3o h\u00e1 edif\u00edcios altos de apartamentos, como s\u00e3o constru\u00eddos tantos parques em regi\u00f5es abandonadas em vez de moradias, como a cidade n\u00e3o \u00e9 sufocada por edifica\u00e7\u00f5es? Bem, eu soube que torres de habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o bem vistas, pois remetem \u00e0 habita\u00e7\u00e3o popular. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A legisla\u00e7\u00e3o at\u00e9 permitia torres altas, mas a popula\u00e7\u00e3o decidiu, em plebiscito, que a altura m\u00e1xima n\u00e3o poderia passar da altura das torres da igreja. \u00c9 a preocupa\u00e7\u00e3o com a paisagem! Eu nunca vi esse entendimento de paisagem na popula\u00e7\u00e3o no Brasil. Isso \u00e9 raro at\u00e9 mesmo entre profissionais da \u00e1rea. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda n\u00e3o vi no Brasil a popula\u00e7\u00e3o comum defendendo mais \u00e1reas verdes para melhorar a drenagem urbana, prote\u00e7\u00e3o de matas ciliares, prote\u00e7\u00e3o de nascentes. Entre especialistas sim, mas n\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o. Os alem\u00e3es n\u00e3o conseguem entender como os brasileiros preferem um modelo de rio concretado &#8211; eu digo preferem porque eu me refiro a termos est\u00e9ticos &#8211; a um rio natural. Tamb\u00e9m n\u00e3o entendem como a popula\u00e7\u00e3o continua defendendo um modelo de mobilidade urbana baseado no transporte individual motorizado, quando a maioria sequer tem condi\u00e7\u00f5es financeiras adequadas para comprar e manter um carro, enquanto as cal\u00e7adas, as ciclovias e o transporte p\u00fablico s\u00e3o desprestigiados. Tampouco compreendem como a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o exige pautas que revertam a desigualdade espacial e defendem pautas que beneficiam certos grupos, dos quais a maioria n\u00e3o faz parte. E n\u00e3o entendem como a popula\u00e7\u00e3o mant\u00e9m essa estrutura de poder pol\u00edtico que defende causas que n\u00e3o s\u00e3o para a maioria. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu, como brasileira e com um olhar de fora, compreendo o processo hist\u00f3rico que levou a isso. Espero que cada vez mais brasileiros conhe\u00e7am a Alemanha, mas n\u00e3o para confirmar o que acham do pa\u00eds, mas para se surpreender e questionar. E que cada vez mais alem\u00e3es conhe\u00e7am outras realidades (n\u00e3o apenas em viagens de consumo, o que j\u00e1 fazem bastante), mas em viv\u00eancias mais qualificadas. Para que ambos, brasileiros e alem\u00e3es, n\u00e3o aceitem mais as coisas sem maiores reflex\u00f5es. Para abandonar a submiss\u00e3o \u00e0s ideias pr\u00e9-estabelecidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Toda cidade \u00e9 um produto da sua sociedade. O empoderamento da sociedade se reflete na cidade. Os novos valores, de uma sociedade mais din\u00e2mica, se refletem na cidade. Em tempos que se fala de democracia, cultura, singularidades, diversidade e sustentabilidade, como \u00e9 a cidade do nosso tempo?<\/span><\/p>\n<p>Acredito firmemente que podemos mudar o modelo para a coexist\u00eancia com os ecossistemas naturais. O urbanismo \u00e9 uma mistura de natureza, tecnologia, tradi\u00e7\u00f5es e sentimentos. Junto com a humaniza\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas centrais com suas singularidades e heran\u00e7a cultural, os rios s\u00e3o uma pe\u00e7a importante na equa\u00e7\u00e3o: eles s\u00e3o a conex\u00e3o entre a natureza e os centros urbanos.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Espero ter contribu\u00eddo com a Alemanha durante minha estadia no pa\u00eds, com um olhar descondicionado. Assim como cada um que passa por aqui e traz a sua bagagem cultural, modifica a realidade estabelecida e constr\u00f3i uma nova realidade. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Como disse um dos meus entrevistados: \u201cA vida \u00e9 como um rio. N\u00e3o tem volta. S\u00f3 ida.\u201d<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es sobre o per\u00edodo na Alemanha, os valores da sociedade atual e a materializa\u00e7\u00e3o destes nas cidades.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":516,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1,11],"tags":[42,41,40],"class_list":["post-507","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-capa","tag-german-chancellor-fellowship","tag-reflections","tag-reflexoes"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/humanitat.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Carolina-Nunes-e-Angela-Merkel.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/507","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=507"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/507\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":740,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/507\/revisions\/740"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/media\/516"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}