{"id":945,"date":"2020-08-11T10:10:22","date_gmt":"2020-08-11T13:10:22","guid":{"rendered":"http:\/\/humanitat.com.br\/?p=945"},"modified":"2023-09-06T17:38:56","modified_gmt":"2023-09-06T20:38:56","slug":"historias-para-as-cidades-do-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/historias-para-as-cidades-do-futuro\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias para as cidades do futuro"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma cidade \u00e9 um grande artefato cultural. Para falar bem a verdade, a cidade \u00e9 o maior artefato cultural produzido pela humanidade. E, como tal, \u00e9 fruto da criatividade e da coopera\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O historiador Yuval Harari afirma que a capacidade de cooperar em grande escala e de forma flex\u00edvel tornou os seres humanos os animais dominantes do planeta. Insetos sociais, como as abelhas e as formigas, cooperam em grande n\u00famero, mas de uma forma bastante r\u00edgida. Os mam\u00edferos sociais, como os chimpanz\u00e9s e os lobos, cooperam de forma relativamente flex\u00edvel, mas apenas em pequena escala. Abelhas n\u00e3o conseguem reinventar sua organiza\u00e7\u00e3o social a partir de uma nova oportunidade; chimpanz\u00e9s n\u00e3o agem coletivamente com centenas de indiv\u00edduos desconhecidos. E o que faz n\u00f3s humanos cooperarmos dessa forma \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o: n\u00f3s criamos e acreditamos em fic\u00e7\u00f5es. Quando inventamos e acreditamos nas hist\u00f3rias, somos capazes de agir de forma male\u00e1vel em conjunto com milh\u00f5es de desconhecidos. Um exemplo bastante did\u00e1tico \u00e9 o dinheiro. N\u00f3s acreditamos que um peda\u00e7o de papel possui um determinado valor, com o qual \u00e9 poss\u00edvel trocar por produtos e servi\u00e7os ao longo do tempo. Uma empresa tamb\u00e9m n\u00e3o existe numa realidade objetiva: n\u00f3s acreditamos nelas, assim como acreditamos em na\u00e7\u00f5es. E somos capazes de trabalhar nas empresas, ganhar dinheiro e seguir as leis de um pa\u00eds.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os nossos valores, normas e condutas dependem das fic\u00e7\u00f5es em que acreditamos. Algumas vezes, as fic\u00e7\u00f5es nos levam a cooperar por guerras. Outras vezes, somos capazes de produzir grandes artefatos culturais, como as cidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando projetamos o futuro de uma cidade, estamos imaginando uma hist\u00f3ria. Se as pessoas acreditarem nessa hist\u00f3ria e se identificarem com ela, elas ser\u00e3o capazes de cooperar para que esse futuro aconte\u00e7a. Mas\u2026 Quais hist\u00f3rias s\u00e3o contadas para as nossas cidades? Como pretendemos viver? Que sonhos n\u00f3s perseguimos? Em quais ideais n\u00f3s acreditamos? Quais s\u00e3o os valores que queremos ver refletidos nas cidades?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma cidade \u00e9 um resultado da sua sociedade. Cada cultura desenvolveu sua forma de se organizar no territ\u00f3rio, em seu tempo. E a nossa, ainda est\u00e1 presa aos desafios da sociedade industrial, muitos dos quais n\u00e3o s\u00e3o mais atuais. Assim como na ind\u00fastria, em que tudo \u00e9 previs\u00edvel, segmentado e funcional, as cidades ao se desenvolverem dentro do esp\u00edrito desse tempo tamb\u00e9m foram separadas em fun\u00e7\u00f5es: trabalhar, habitar, recrear e circular. Tudo com a escala da m\u00e1quina. Por exemplo: quando caminhamos por vielas na escala do pedestre, vemos fachadas curtas e ricas em detalhes. E quando andamos em ruas com a escala da m\u00e1quina, as fachadas s\u00e3o longas e mon\u00f3tonas, com grandes letreiros, pois foram pensadas para a velocidade dos autom\u00f3veis. A massifica\u00e7\u00e3o e o controle sobre a natureza tamb\u00e9m foram aspectos determinantes. Para exemplificar, os rios tiveram suas margens retificadas e concretadas ou foram at\u00e9 mesmo canalizados; pequenos com\u00e9rcios tradicionais de rua foram substitu\u00eddos por grandes franquias dentro de shoppings, que poderiam estar em qualquer lugar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma das consequ\u00eancias da sociedade massificada \u00e9 a tend\u00eancia das pessoas de se sentirem impotentes e quase condicionadas a repetirem padr\u00f5es sem questionar. Isso levou a uma banaliza\u00e7\u00e3o da perda de valores humanos e urbanos. E assim, desvirtuamos a no\u00e7\u00e3o do que deveria ser uma cidade. Cidade significa \u201clugar de cidad\u00e3os\u201d, mas o espa\u00e7o da cidadania se perdeu. A capacidade cr\u00edtica cedeu lugar para um roteiro padronizado em que a diferen\u00e7a n\u00e3o era aceita. De fato, por algum tempo, a fam\u00edlia tinha um formato definido, a escolha da profiss\u00e3o era para a vida inteira, o casamento duradouro, os filhos, a casa, o carro, a aposentadoria\u2026 Se esse roteiro pudesse fazer sentido no s\u00e9culo XX, ele definitivamente n\u00e3o \u00e9 mais v\u00e1lido no s\u00e9culo XXI. A l\u00f3gica industrial falhou nas utopias de felicidade que nos prometeu e criou habitats sem vida e sem conv\u00edvio social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na nossa sociedade contempor\u00e2nea, a vida \u00e9 din\u00e2mica. Nosso ambiente, trabalho e relacionamentos est\u00e3o mais fluidos, flex\u00edveis e imprevis\u00edveis do que nunca. A cidade, assim como a vida, n\u00e3o pode ser massificada e reduzida a aspectos utilit\u00e1rios. O urbanismo, por exemplo, \u00e9 uma mistura de natureza, tecnologia, tradi\u00e7\u00f5es e sentimentos. N\u00f3s precisamos vivenciar aquilo que chamamos de cultura e \u00e9 no conjunto dos pequenos valores que reside a magia da vida e a m\u00edstica das cidades. O contato com a natureza, o conv\u00edvio social, o usufruto das artes e dos patrim\u00f4nios materiais e imateriais s\u00e3o essenciais para as cidades e para as pessoas. Num momento em que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o vive em \u00e1reas urbanas, podemos dizer que as cidades s\u00e3o o nosso habitat. Quando falamos sobre criatividade, diversidade, democracia e sustentabilidade, est\u00e1 impl\u00edcito que queremos criar habitats mais humanos. E ent\u00e3o: quais hist\u00f3rias vamos criar? E por quais hist\u00f3rias vamos cooperar?<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando projetamos o futuro de uma cidade, estamos imaginando uma hist\u00f3ria. Se as pessoas acreditarem nessa hist\u00f3ria e se identificarem com ela, elas ser\u00e3o capazes de cooperar para que esse futuro aconte\u00e7a. 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