{"id":964,"date":"2020-11-26T16:04:23","date_gmt":"2020-11-26T19:04:23","guid":{"rendered":"http:\/\/humanitat.com.br\/?p=964"},"modified":"2020-11-26T16:07:01","modified_gmt":"2020-11-26T19:07:01","slug":"jornal-da-usp-o-futuro-das-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/jornal-da-usp-o-futuro-das-cidades\/","title":{"rendered":"Jornal da USP: O futuro das cidades"},"content":{"rendered":"<p>Artigo publicado no <a href=\"http:\/\/jornal.usp.br\/?p=373137\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Jornal da USP<\/strong><\/a><\/p>\n<h2><b>O futuro das cidades: um olhar emergente para os rios urbanos e a infraestrutura verde<\/b><\/h2>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por Amanda Carbone, pesquisadora do Instituto Siades e colaboradora do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP, e outros autores*<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A infraestrutura verde e azul s\u00e3o tem\u00e1ticas contempor\u00e2neas da rela\u00e7\u00e3o dos rios com as cidades, que promovem solu\u00e7\u00f5es no planejamento das cidades de forma econ\u00f4mica, e com benef\u00edcios para as pessoas e o meio ambiente, considerando aspectos ecol\u00f3gicos, preven\u00e7\u00e3o de cheias e cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos saud\u00e1veis, inclusivos e sustent\u00e1veis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Uma das grandes preocupa\u00e7\u00f5es atuais \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da vida urbana, enfocando novos valores sociais, culturais e ambientais; trazendo uma ressignifica\u00e7\u00e3o das cidades e uma reflex\u00e3o: qual cidade queremos viver? Historicamente, as cidades t\u00eam sido planejadas e constru\u00eddas em detrimento dos fluxos e processos naturais. O tra\u00e7ado geom\u00e9trico das cidades antigas \u00e9 usado at\u00e9 hoje em projetos urbanos, influenciado por um modelo cartesiano de apropria\u00e7\u00e3o da natureza e ocupa\u00e7\u00e3o urbana de forma r\u00e1pida e eficiente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A forma de planejar cidades do s\u00e9culo XIX, a partir de um modelo higienista onde a prioridade era garantir a ocupa\u00e7\u00e3o urbana em condi\u00e7\u00f5es adequadas de salubridade, culminou em obras de canaliza\u00e7\u00e3o de rios, drenagem urbana subterr\u00e2nea para r\u00e1pido escoamento da \u00e1gua, aterramentos, alargamento de vias, entre outros aspectos. Tamb\u00e9m o urbanismo modernista do s\u00e9culo XX buscou organizar a cidade a partir de fun\u00e7\u00f5es urbanas e separa\u00e7\u00e3o funcional de usos do solo, e com foco priorit\u00e1rio no uso residencial e no transporte automotivo, gerando espraiamento urbano e constru\u00e7\u00e3o de grandes vias expressas. Sob a influ\u00eancia desses modelos de urbaniza\u00e7\u00e3o pouco se levou em conta a funcionalidade ecol\u00f3gica e os fluxos da natureza no planejamento urbano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O modelo de efici\u00eancia do urbanismo na fase industrial foi inspirado no modo de produ\u00e7\u00e3o, com uma alus\u00e3o \u00e0 Carta de Atenas, 1933. Suas marcas reestruturantes levaram a uma setoriza\u00e7\u00e3o das cidades industriais de acordo com suas fun\u00e7\u00f5es, o que inevitavelmente resultou numa clara distor\u00e7\u00e3o do ambiente urbano. Nas grandes cidades brasileiras, este modelo de urbaniza\u00e7\u00e3o sofreu transforma\u00e7\u00f5es profundas a partir da d\u00e9cada de 1970, com o advento de modelos mais flex\u00edveis, de acordo com as mudan\u00e7as na organiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica, e foco no consumo e servi\u00e7os.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 majoritariamente urbana, com 84,4% vivendo em cidades (IBGE, 2010). \u00c0 semelhan\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o mundial, as cidades sofreram uma explos\u00e3o de crescimento espacial e populacional principalmente ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Hoje, somos 85% de pessoas vivendo em cidades e as tend\u00eancias apontam para um aumento nessa porcentagem nos pr\u00f3ximos anos. Aliado ao desafio de planejar cidades para uma demanda crescente de habitantes, e ao mesmo tempo para garantir o acesso da popula\u00e7\u00e3o a um ambiente saud\u00e1vel e equilibrado, \u00e9 urgente alinhar o planejamento urbano brasileiro \u00e0 atual agenda voltada para a constru\u00e7\u00e3o de cidades resilientes e sustent\u00e1veis, seguindo acordos mundiais como a Agenda 2030 e o Acordo de Paris pelo clima de 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo (RMSP), por exemplo, enfrenta-se um cen\u00e1rio de planejamento urbano com diversas problem\u00e1ticas, como a alta impermeabiliza\u00e7\u00e3o em \u00e1reas consolidadas, intensas desigualdades socioambientais e m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes, al\u00e9m de uma ocupa\u00e7\u00e3o desordenada que se espraia cada vez mais para as franjas da cidade. Este espraiamento gera press\u00f5es sobre os recursos naturais no Cintur\u00e3o Verde, especialmente nas \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o aos mananciais da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, e sobre os grandes remanescentes florestais com alta biodiversidade e prestadores de relevantes servi\u00e7os ecossist\u00eamicos (<\/span><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/o-futuro-das-cidades-um-olhar-emergente-para-os-rios-urbanos-e-a-infraestrutura-verde\/#nota1\"><span style=\"font-weight: 400;\">1<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">) para a metr\u00f3pole, caso do Parque Estadual da Cantareira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, o planejamento e gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos na RMSP tem seguido uma l\u00f3gica insustent\u00e1vel em que, para atender a demandas crescentes de consumo na metr\u00f3pole, busca-se \u00e1gua em mananciais cada vez mais distantes, refor\u00e7ando um paradigma baseado em obras de engenharia hidr\u00e1ulica convencionais que geram impactos e passivos ambientais em outras localidades da macrometr\u00f3pole paulista. \u00c9 o caso do Sistema Produtor do Alto Tiet\u00ea, que j\u00e1 fez v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es em rios, nas bordas da metr\u00f3pole, a exemplo do \u00faltimo sistema implantado na RMSP, o Sistema S\u00e3o Louren\u00e7o, na regi\u00e3o dos munic\u00edpios de Ibi\u00fana e Juquitiba, e agora avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o aos rios do litoral, como o Itapanha\u00fa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste contexto, os desafios para se planejar cidades mais resilientes e sustent\u00e1veis s\u00e3o muitos. Um deles \u00e9 resolver problemas ambientais e sociais superpostos e estreitar a rela\u00e7\u00e3o entre urbanidade e natureza, tanto nas \u00e1reas urbanas consolidadas quanto nas franjas da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tem havido nas \u00faltimas d\u00e9cadas um movimento mundial de cidades aderindo ao \u201cverde\u201d como infraestrutura, com participa\u00e7\u00f5es dos diferentes setores da sociedade, inclusive dos movimentos ativistas considerados chave neste processo de mudan\u00e7a, como \u00e9 o caso de pa\u00edses como Alemanha, Espanha e Coreia do Sul. Nesse sentido, somos instigados a nos perguntar: como \u00e9 a cidade que representa esses valores? Em que cidade queremos viver?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Experi\u00eancias apontam que alternativas de interven\u00e7\u00f5es voltadas a melhorar a permeabilidade na bacia, renaturalizar o canal fluvial emparedado ou devolver a plan\u00edcie de inunda\u00e7\u00e3o ao rio, podem ser mais efetivas e menos custosas ambiental e financeiramente do que solu\u00e7\u00f5es de engenharia tradicionais. Nesse sentido, al\u00e9m do objetivo exclusivo de melhorar a qualidade da \u00e1gua, h\u00e1, nessa abordagem emergente, a possibilidade de reinserir rios e c\u00f3rregos na paisagem urbana, recuperando a mem\u00f3ria desses corpos h\u00eddricos, conectando espa\u00e7os p\u00fablicos, valorizando os servi\u00e7os ambientais prestados \u00e0 cidade pelos rios, estimulando a participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora o conceito de infraestrutura verde (<\/span><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/o-futuro-das-cidades-um-olhar-emergente-para-os-rios-urbanos-e-a-infraestrutura-verde\/#nota2\"><span style=\"font-weight: 400;\">2<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">) em si seja recente, o campo do planejamento ecol\u00f3gico da paisagem tem sido moldado desde meados do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX, por meio do trabalho inspirador de profissionais como Ebenezer Howard e Law Olmsted. Howard ficou conhecido pela obra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cidades-Jardins do Amanh\u00e3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de 1902, em que projetou um modelo urbano multic\u00eantrico que inspirou o conceito de cidade-jardim amplamente conhecido. Frederick Law Olmsted (1822-1903) trouxe uma concep\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da natureza e, al\u00e9m de projetar o Central Park, fez um trabalho not\u00f3rio em Boston (EUA) no Colar de Esmeraldas, um sistema de parques multifuncional que recuperou uma extensa \u00e1rea degradada e proporcionou diversos benef\u00edcios, como purifica\u00e7\u00e3o do ar, espa\u00e7os de lazer e drenagem da \u00e1gua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outros exemplos internacionais mais atuais podem ser citados, dentre os quais as cidades de Essen e de Munique, na Alemanha, e a experi\u00eancia da Holanda, mencionados pela arquiteta urbanista Carolina Nunes, da ONG Humanitat.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Rio Emscher, na cidade de Essen, j\u00e1 foi um dos rios mais polu\u00eddos da Alemanha e sua hist\u00f3ria \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de tentativa de controlar a natureza. Al\u00e9m de ter sido retificado, o rio tinha a fun\u00e7\u00e3o de transportar res\u00edduos industriais e esgoto. Com o decl\u00ednio da atividade de minera\u00e7\u00e3o, a regi\u00e3o entrou em decad\u00eancia. Adotou-se, ent\u00e3o, uma estrat\u00e9gia, em curso, de recupera\u00e7\u00e3o das \u00e1reas industriais abandonadas, renaturaliza\u00e7\u00e3o do rio e cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de lazer e mobilidade, permeadas por interven\u00e7\u00f5es culturais e educativas. Essen foi considerada, em 2017, a Capital Verde da Europa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em Munique, v\u00e1rios fatores diferenciam a cidade em termos de planejamento urbano e infraestrutura verde: os grandes parques lineares, os parques de bairro com contato com a \u00e1gua, moradia perto do trabalho, passagens exclusivas para pedestres e ciclistas, e a marcante presen\u00e7a do Rio Isar no centro da cidade, integrado \u00e0 paisagem, com espa\u00e7os de lazer, prote\u00e7\u00e3o contra cheias e melhores condi\u00e7\u00f5es para a biodiversidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na Holanda, pa\u00eds bastante conhecido pelas infraestruturas verde e azul, um exemplo marcante \u00e9 o projeto Room for the River, que tamb\u00e9m visa a reduzir o risco de inunda\u00e7\u00f5es, garantindo espa\u00e7o para as \u00e1guas e integrando o rio \u00e0 paisagem, ao mesmo tempo em que propicia espa\u00e7os agrad\u00e1veis e seguros para deslocamento e lazer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Experi\u00eancias internacionais como estas podem inspirar a\u00e7\u00f5es no contexto brasileiro, mas \u00e9 preciso considerar as particularidades da nossa realidade urbana. Em \u00e1reas totalmente consolidadas, como o espig\u00e3o da Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo, onde n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel transformar o uso do solo urbano a ponto de destamponar totalmente nascentes e rios, \u00e9 poss\u00edvel, ao menos, buscar formas de ressignificar a rela\u00e7\u00e3o dos habitantes com esses corpos d\u2019\u00e1gua que, embora degradados e escondidos, continuam existindo no territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A realidade brasileira pode se tornar ainda mais complexa quando se considera a vulnerabilidade social e ambiental, caracterizada pela ocupa\u00e7\u00e3o irregular das \u00e1reas perif\u00e9ricas da cidade e uma vasta degrada\u00e7\u00e3o ambiental sem a devida fiscaliza\u00e7\u00e3o. Nestes casos n\u00e3o basta se pensar em solu\u00e7\u00f5es inovadoras e criativas de infraestrutura verde. \u00c9 necess\u00e1rio enxergar o problema a partir de um olhar intersetorial e reconhecer que existem m\u00faltiplas causas, cujas respostas exigem planejamento, inclus\u00e3o social e vontade pol\u00edtica para se pensar em solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o apenas desaceleram a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, mas geram mudan\u00e7as sociais. Um caminho, por exemplo, \u00e9 criar \u00e1reas de lazer e verde em lugares degradados e abandonados, a partir do engajamento comunit\u00e1rio. A cocria\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es envolvendo diferentes atores, inclusive a comunidade do entorno, \u00e9 uma medida que visa ao estabelecimento de uma conex\u00e3o \u00edntima com as propostas de restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, garantindo assim a pr\u00f3pria sustentabilidade destas interven\u00e7\u00f5es no futuro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como afirma Luciana Martins Schenk, professora do IAU\/USP e ABAP, a paisagem \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica que traz a ansiedade e o desejo do cidad\u00e3o de construir a sua pr\u00f3pria cidade. Nesse sentido, \u00e9 necess\u00e1rio uma revolu\u00e7\u00e3o cultural, al\u00e9m de maior comprometimento dos diferentes atores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O exemplo da cidade de S\u00e3o Carlos, no interior paulista, inspira alguns passos para uma a\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bottom-up<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, a partir dos interesses e a\u00e7\u00f5es coletivas. O di\u00e1logo durante a revis\u00e3o do Plano Diretor da cidade resultou em uma altera\u00e7\u00e3o de diretrizes urban\u00edsticas, com aumento da faixa de preserva\u00e7\u00e3o ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">non aedificandi<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> na bacia do Rio Monjolinho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em Lages, o projeto Criaticidade, uma parceria entre a iniciativa p\u00fablica e privada desenvolvido pela Gl\u00f3bulo, empresa de Florian\u00f3polis, e com a Humanitat, no planejamento da acelera\u00e7\u00e3o criativa do territ\u00f3rio, visou ao desenvolvimento da cidade a partir da diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade social e do aumento do potencial econ\u00f4mico por meio de solu\u00e7\u00f5es criativas; exemplo de est\u00edmulo ao engajamento comunit\u00e1rio na busca por solu\u00e7\u00f5es de planejamento urbano. O primeiro passo incluiu a realiza\u00e7\u00e3o de um diagn\u00f3stico socioecon\u00f4mico da cidade e o mapeamento de potencialidades. A segunda fase envolveu a cria\u00e7\u00e3o de metas, eixos e comit\u00eas para discutir e tratar de cada um dos temas priorit\u00e1rios elencados, como comenta a arquiteta Carolina Nunes, da Humanitat. Como parte desse processo, foi criado o movimento #NovosTropeiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pensar em a\u00e7\u00f5es no territ\u00f3rio que fomentem uma cidade sustent\u00e1vel na qual a infraestrutura verde esteja integrada \u00e9 um reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o da natureza como espa\u00e7o de patrim\u00f4nio cultural, conforme defende Gabriel Gallarza, do Observat\u00f3rio de Intera\u00e7\u00f5es no Ambiente (OIA) e Instituto de Documenta\u00e7\u00e3o Socioambiental (H\u00fcgato). Ele traz esse enfoque em seu trabalho de invent\u00e1rios territoriais, em um processo de identifica\u00e7\u00e3o e registro das caracter\u00edsticas mais significativas das paisagens, vistas sob um enfoque cultural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro exemplo desse tipo de abordagem \u00e9 o projeto Retratos do Bel\u00e9m, feito em Curitiba (PR), na bacia do Rio Bel\u00e9m, um dos mais importantes da cidade. Foi feito um trabalho de resgate de material te\u00f3rico e pesquisas de campo com varredura, percorrendo toda a extens\u00e3o do rio (em 12 percursos que propiciaram a identifica\u00e7\u00e3o de 120 elementos paisag\u00edsticos, incluindo manifesta\u00e7\u00f5es culturais). Cada elemento foi inventariado em uma ficha com descri\u00e7\u00e3o e fotos. Com esse levantamento, \u00e9 poss\u00edvel fazer uma interpreta\u00e7\u00e3o da paisagem (com a identifica\u00e7\u00e3o, por exemplo, da estrutura do leito do rio em cada trecho \u2013 natural, canalizado, submerso e retificado) e criar conjuntos paisag\u00edsticos que agrupam os elementos inventariados e propiciam material valioso para o planejamento urbano. O projeto resultou em v\u00eddeos e pr\u00eamios e o blog Retratos do Bel\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa perspectiva de integra\u00e7\u00e3o entre os espa\u00e7os naturais e culturais e sua rela\u00e7\u00e3o inerente com o espa\u00e7o constru\u00eddo, o arquiteto e urbanista Newton Massafumi Yamato (Medialab\/SP) apresenta um projeto inovador para o Parque do Bixiga, de autoria da equipe formada pelos arquitetos Bruno Rissardo, Carila Matzenbacher, Luiz Felipe Orlando, Marcelo X, Mar\u00edlia Gallmeister e Newton Massafumi Yamato, inspirado em ideias anteriores de Lina Bo Bardi e Edson Elito. A regi\u00e3o, pr\u00f3xima ao centro de S\u00e3o Paulo e onde se localiza o Teatro Oficina, possui diversos bens materiais tombados, sendo composta de um conjunto de c\u00f3rregos, hoje tamponados, considerados pelo C\u00f3digo de Obras vigente como parte da galeria pluvial da cidade. Existe neste local uma disputa antiga entre o Grupo Silvio Santos, atual propriet\u00e1rio do terreno, e o Teatro Oficina, porta-voz dos movimentos e das demandas por mais espa\u00e7os culturais e de lazer neste trecho da cidade, que apresenta car\u00eancia de \u00e1reas verdes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, o projeto proposto visa a uma ressignifica\u00e7\u00e3o dessa paisagem que inclui a reabertura de um pequeno trecho do Rio Bixiga, promovendo um contato in\u00e9dito dos paulistanos com os rios urbanos, transformando-o num espa\u00e7o p\u00fablico e valorizando sua centralidade ambiental e sociocultural (<\/span><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/o-futuro-das-cidades-um-olhar-emergente-para-os-rios-urbanos-e-a-infraestrutura-verde\/#nota3\"><span style=\"font-weight: 400;\">3<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O processo desse estudo envolveu uma integra\u00e7\u00e3o com os artistas locais e o Teatro Oficina no reconhecimento da import\u00e2ncia do sistema h\u00eddrico local, e contou com a participa\u00e7\u00e3o dos idealizadores do projeto Rios e Ruas, o arquiteto Jos\u00e9 Bueno e o ge\u00f3grafo Luiz de Campos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de ser uma demanda defendida e apoiada por diversas entidades, universidades, conselhos e outros grupos como o Movimento Salve Saracura e o movimento Rede Social Bela Vista e ter seu projeto de Lei N\u00ba 805\/2017, de autoria do vereador Gilberto Natalini, aprovado em 2019 por duas vezes na C\u00e2mara Municipal com o apoio de parlamentares de variados partidos, a cria\u00e7\u00e3o do Parque do Bixiga foi vetada pela Prefeitura de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A administra\u00e7\u00e3o municipal alegou que o projeto n\u00e3o re\u00fane condi\u00e7\u00f5es de ser convertido em lei por \u201cinvadir\u201d a compet\u00eancia do poder Executivo, j\u00e1 que \u00e9 composto por terrenos particulares. E que a \u00e1rea n\u00e3o \u00e9 definida como priorit\u00e1ria pelo Plano Diretor Estrat\u00e9gico, n\u00e3o havendo, no local, vegeta\u00e7\u00e3o significativa nem remanescente de Mata Atl\u00e2ntica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de existirem mecanismos como a Transfer\u00eancia do Potencial Construtivo \u2013 TPC no \u00e2mbito do Plano Diretor Estrat\u00e9gico para que o empreendedor possa ser ressarcido e aplique o potencial em outro local da cidade e do Bixiga ser um bairro carente de \u00e1reas verdes e que apresenta, de acordo com pesquisa recente do IEA, um ponto cr\u00edtico da ilha de calor urbano, a quest\u00e3o permanece em aberto e na pauta dos movimentos pela amplia\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos e da infraestrutura verde e azul na cidade de S\u00e3o Paulo<\/span><\/p>\n<h3><b>Conclus\u00e3o<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As experi\u00eancias nacionais e internacionais aqui citadas apontam propostas de compatibiliza\u00e7\u00e3o dos aspectos f\u00edsicos da infraestrutura verde e os rios urbanos, com o envolvimento da sociedade, em diferentes contextos e etapas de sua implementa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na cidade global de S\u00e3o Paulo, al\u00e9m do caso do Parque Bixiga, outras movimentos da sociedade civil, como o do Coletivo Ocupe Abrace, na Pra\u00e7a das Nascentes, as iniciativas Rios e Ruas, Existe \u00c1gua em S\u00e3o Paulo, Secura Humana e a ocupa\u00e7\u00e3o Guarani pelo Centro Cultural Yari Ty, no Jaragu\u00e1, s\u00e3o evid\u00eancias de que temos um vasto potencial para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova cultura de valoriza\u00e7\u00e3o dos rios urbanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, h\u00e1 grandes desafios a vencer para o fortalecimento das a\u00e7\u00f5es <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bottom-up<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> que incorporem as propostas da sociedade civil e o engajamento comunit\u00e1rio na articula\u00e7\u00e3o de suas aspira\u00e7\u00f5es nas a\u00e7\u00f5es de planejamento urbano. Destaca-se a transforma\u00e7\u00e3o cultural e o engajamento de todos os setores, e a gest\u00e3o p\u00fablica, numa governan\u00e7a integrada para florescer um paradigma inovador de valoriza\u00e7\u00e3o da paisagem urbana com seus rios e \u00e1reas verdes, respeitando os fluxos e processos naturais.<\/span><\/p>\n<h3><b>Notas:<\/b><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(1) Os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos comp\u00f5em um conjunto de benef\u00edcios fornecidos pelo ambiente natural, ou seus elementos, para os seres humanos. Estes servi\u00e7os podem ser divididos em quatro categorias: provis\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o, culturais e de suporte. Eles incluem a provis\u00e3o de mat\u00e9rias-primas essenciais para as atividades humanas; promo\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es dos ecossistemas como: sequestro de carbono; regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica; produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua; redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o do ar, \u00e1gua e solo, entre outros; al\u00e9m de todos os benef\u00edcios culturais advindos do contato das pessoas com elementos naturais. Hoje, s\u00e3o considerados elementos essenciais nas Solu\u00e7\u00f5es Baseadas na Natureza que incluem a\u00e7\u00f5es \u201cinspiradas por, apoiadas por, ou copiadas da natureza\u201d para propor iniciativas inovadoras para abordar quest\u00f5es sociais, ambientais e econ\u00f4micas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2) O termo infraestrutura verde enfatiza a ideia de sistemas interconectados de \u00e1reas naturais, levando em conta m\u00faltiplas escalas que variam entre grandes \u00e1reas protegidas a pequenos jardins, a partir de uma perspectiva multifuncional. Tamb\u00e9m tem como premissas a interdisciplinaridade, a integra\u00e7\u00e3o entre diferentes n\u00edveis de governo e o planejamento, desenho e implementa\u00e7\u00e3o com envolvimento comunit\u00e1rio e participa\u00e7\u00e3o social, pensando em diferentes estrat\u00e9gias que garantam infraestrutura verde e os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos dela derivados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3) A renaturaliza\u00e7\u00e3o dos rios segue a mesma l\u00f3gica da restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, com o objetivo de trazer as condi\u00e7\u00f5es naturais encontradas originalmente, antes da urbaniza\u00e7\u00e3o. A renaturaliza\u00e7\u00e3o dos rios prev\u00ea uma altera\u00e7\u00e3o na hidrologia local e regional com, por exemplo, \u00e1reas para represamento tempor\u00e1rio das \u00e1guas inspiradas nas v\u00e1rzeas, regulando principalmente a ocorr\u00eancia de enchentes. O destamponamento dos rios ainda favorece os processos de umidifica\u00e7\u00e3o e refrigera\u00e7\u00e3o do ambiente urbano aprimorando a habitabilidade das cidades. Por estimular tamb\u00e9m a restaura\u00e7\u00e3o do tra\u00e7ado original, e da vegeta\u00e7\u00e3o associada, os projetos de renaturaliza\u00e7\u00e3o ainda promovem a biodiversidade nas cidades ao criar nichos mais especializados para diferentes esp\u00e9cies animais e vegetais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">* <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Deize Sbarai Sanches Ximenes, Ivan Carlos Maglio e Victor Kinjo, pesquisadores do programa Cidades Globais do IEA, e Giuliano Locosselli, pesquisador do IEA e do Instituto de Bot\u00e2nica da USP.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Este artigo tamb\u00e9m contou com a colabora\u00e7\u00e3o dos palestrantes no evento Rios Urbanos e Infraestrutura Verde promovido pelo Centro de S\u00edntese Cidades Globais do IEA: Carolina Nunes (Humanitat), Luciana Martins Schenk (professora do IAU\/USP), Gabriel Gallarza (Observat\u00f3rio de Intera\u00e7\u00f5es no Ambiente\/OIA e H\u00fcgato) e Newton Massafumi Yamato (Medialab\/SP).<\/span><\/i><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/?p=373137\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span style=\"font-weight: 400;\">jornal.usp.br\/?p=373137<\/span><\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado no Jornal da USP &#8220;O futuro das cidades: um olhar emergente para os rios urbanos e a infraestrutura verde&#8221;. Por Amanda Carbone, pesquisadora do Instituto Siades e colaboradora do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP, e outros autores*<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":966,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[11,13,2],"tags":[],"class_list":["post-964","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-destaque","category-noticias"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/humanitat.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/margem-isar.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=964"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/964\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":968,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/964\/revisions\/968"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/media\/966"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/humanitat.com.br\/pb\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}